A dialética entre realidade e sonho no cinema: A fusão investigador/espectador proposta por Michael Mann em Manhunter.

Afastado do FBI por conta de um colapso nervoso, o agente Will Graham (William Petersen) é convocado novamente para auxiliar na captura de um perigoso serial killer que tem aterrorizado a cidade. Com especial habilidade em desvendar mentes criminosas, ele precisará contar também com as dicas do último homem que prendeu, responsável por provocar sua crise: o Dr. Hannibal Lecktor (Borrian Cox).

Michael Mann em Manhunter é mais do que um diretor de cinema na película, ele aparece aqui também como um cinéfilo, um dominante e dominado do médium cinematográfico. A estrutura do filme remonta a própria estrutura do fazer fílmico, exposto no binômio espectador/detetive representando a dinâmica entre sonho e realidade, discussões próprias do Pathos cinematográfico.

O detetive Graham remonta pequenos detalhes do caso, falando consigo mesmo, reconstituindo os passos do assassino que não à toa é apelidado de “Fada do dente”, explicitando já a carga onírica que sobrecarregará a narrativa, assim como a pergunta que o Doutor Lektor logo faz a Graham: “você sonha muito?”.

É na trilha do assassino que se expõem o fascínio do protagonista e assassino pelas imagens, a necessidade do assassino em filmar e contemplar suas vítimas, e a decupagem do detetive na cena do crime, similar a realizada pelo diretor de cinema. As imagens estáticas e milimétricas na construção dos planos de Michael Mann, conferem o simbolismo necessário através dos arquétipos inalcançáveis criados, a família perfeita, a mulher perfeita. O crime perfeito.

Essa fruição da imagem estática proposta pelo diretor, evoca uma dupla exposição de fixação e espelhamento entre detetive/espectador, ambos detetives e voyeurs decupados em prazeres explícitos, simbolizados na dialética,  assassinato/reconstituição do crime, arremessando espectador e detetive à narrativa.

Na aparição da figura de Hannibal Lekter surge uma nova camada de narrativa e psicologia, com o aprofundamento da discussão entre sonho e realidade. O doutor Lekter ressalta a pertinência do sonho com camadas de interpretações, a possibilidade de significação das imagens, desvelando uma qualidade própria ao cinema, diversas vezes apelidado de “fábrica de sonhos”. A eficácia do cinema e da investigação em curso é estabelecida na relação da apropriação dessas imagens à fim de investigação de seu potencial na narrativa, fato que se apresenta a cada novo filme assistido e a cada nova pista proposta.

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As nuances na direção de Michael Mann são majestosas, no primeiro encontro de Lekter com Graham, percebemos a câmera levemente inclinada, demonstrando a instabilidade emocional de Graham diante de Lekter, e o plano em profile shot, ocultando as verdadeiras intenções de ambos. Curioso ainda perceber como os dois personagens são enquadrados em plano/contra plano, centralizados entre as barras de ferro da cela, os dois estão igualmente presos em suas mentes e espacialmente dispostos na temporalmente.

A alusão ao cinema não resiste ao explícito, e aparece claramente no desfecho do filme, a analogia constante com espelhos ao longo da narrativa é finalmente desvelada, quando o assassino quebra o espelho com um soco na diegese, o artifício de Michael Mann é revelado, diegese e “realidade” convivem agora sem barras de ferro entravando-as.

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