A desconstrução como paralelo da modernidade no filme Masculino-Feminino: A Câmera-Discurso de Jean-Luc Godard.

Os seis primeiros minutos de Masculino-Feminino (Masculin Féminin,1966) dirigido por Jean-Luc Godard alegorizam perfeitamente a dinâmica da modernidade em curso da França dos anos 60 com os movimentos de contra cultura, a confusão mental, desencontro, violência, desilusão e acima de tudo indiferença .

A forma como o diretor explora o diálogo entre os personagens destacando na interação entre eles isolando um dos personagens apenas dentro do enquadramento, em contraste a um outro que indaga, expõe quase que um aspecto documental da narrativa, expressando assim a urgência em comentar e analisar os acontecimentos em curso nessa década de ebulição ideológica. É aos anseios e através das personalidades de seus personagens que o diretor expõe na diegese a dialética dessas ideologias.

A chave para entender a estrutura interna da construção da direção e narrativa, está no aspecto da contiguidade espacial na sua instrumentalidade no “lugar” de fala quebrada que evoca os traços psicológicos dessa juventude francesa em crise, que ainda a montagem cisma em recortar, com inserções de telas pretas e frases ou números que veiculam uma ideologia dominante tanto do espaço do artista (diretor) quanto do espaço (diegese) abordado, ideologia essa vinculadora de questões da contra-cultura e burguesia.

Essa  abordagem moderna de ideologias em choque aqui é explorada in loco, no momento histórico de manufaturação do espaço fílmico, o que favorece um espelhamento hermenêutico histórico-social.

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Agora analisando outro aspecto técnico, a questão do som é fundamental, porque ao mesmo tempo que traz realismo a película com uma ambientação sempre em ebulição, evocando ao mesmo tempo aspectos dissonantes, com barulhos contra-diegéticos, ou mesmo falas atropeladas. O lugar de fala aqui é diametralmente e espacialmente determinado ina imersão da confusão, uma dissonância extremamente arquitetada visando a inserção do espectador na própria inconstância dessa dinâmica da modernidade, e dessa juventude que parece não encontrar-se em idéias e ideais diluídos pela própria dinâmica social e política, pois o simples ato da fala ou encontro é caracterizado por componentes políticos explorados por Godard, não passando incólume em quadros extremamente bem compostos.

A inserção da tela em preto com comentários sobre o filme abre precedente para uma dupla ação do diretor que comanda a película e ao mesmo tempo comentando-a, sendo assim orador e comentarista, subjugando suas indagações em movimentos contínuos, expressos nas inconstâncias em seus personagens alegóricos, que elevam suas interpretações ao nível da caricatura do desencontro, mas que ao mesmo tempo são construtos da ideologia recorrente.

O filme é um constante exercício de metalinguagem, e o filme dentro do filme, o diretor dentro ou fora de seus personagens de acordo com sua visão ou negação de mundo, o status quo de uma arte que constantemente se confronta dentro da montagem e narrativa.

No momento precedente do ato final da película, a personagem principal em um estúdio de gravação, cantando uma música, faz o paralelo ideal entre realidade e aparência, e como o aparato tecnológico e capitalista (na visão do diretor) transforma a persona e a “enfeita” de acordo com sua demanda em criar uma artista, comercialmente vendável e ao mesmo tempo original.

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